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"Sinisdestra": 9


"Sinisdestra" é um livro de contos interligados por um tema comum a todos.
Você encontra as partes anteriores nas postagens antecedentes.

9.

O primeiro chegou adiantado, ainda faltavam quarenta e cinco minutos para o encontro, mas em sua posição de liderança, precisava ter certeza de que tudo ocorreria com discrição e segurança. Pediu ao garçom que o instalasse em uma mesa com seis lugares. Como havia poucas pessoas almoçando naquele momento, pôde optar por uma localização ao lado da janela, próxima ao piano de cauda e dos toaletes. Sentou-se de frente para a porta que dava acesso ao ambiente principal, atento a cada movimento vindo da sala de espera e da cozinha. O atendente veio anotar o seu pedido, que se restringia a uma garrafa de água mineral e o jornal do dia. Foi surpreendido com uma notícia da primeira página. Sua testa gotejou e as mãos ficaram suarentas. O corpo do Albuquerque havia sido encontrado em seu apartamento. A informação revelava que havia sinais de violência, uma briga que indicava que o assassinado lutara com seus agressores antes de ser alvejado com três tiros à queima-roupa. Sob a manchete “Funcionário público é encontrado morto” havia uma foto da fachada do edifício de luxo em que ele morava com a mulher e a filha.

O Albuquerque não virá, disse de si para si Alfonsino.

Com um dos assentos vagos, a mesa ficaria completa com cinco dos seis esperados para a ocasião. Relendo a reportagem mais uma vez, Alfonsino via com cautela a informação de que a polícia ainda não tinha pistas da motivação para o homicídio. Nada havia sido roubado durante o crime, por isso as especulações giravam em torno da hipótese de vingança.

Logo que Bartolomeu chegou ao restaurante foi recebido por aquele que o antecedeu. Ambos estavam tensos, e não poderia ser diferente. Alfonsino mostrou o jornal para o outro.

Você já viu esta merda, perguntou Alfonsino.

            O desgraçado teve o que merecia, respondeu Bartolomeu.

            Olhe onde o filho da puta morava, dizia, com um forte acento de repreensão entre os lábios semicerrados, o primeiro.

            Todos tomamos o cuidado para não chamarmos a atenção, mas esse imbecil tinha que morar no bairro mais caro da cidade em um condomínio luxuoso, indignava-se Bartolomeu.

            Juntos chegaram Castro e Denisardo. Após os contidos cumprimentos, ambos se sentaram à mesa. O primeiro recém chegado perguntou se eles já tinham lido o jornal. O assassinato de Albuquerque era o mote inicial daquele encontro, e não poderia ser diferente, afinal ele era parte importante da reunião marcada para esse dia. Depois de solicitar ao garçom um cerveja, Denisardo caçoou da pouca astúcia do morto e se mostrou preocupado com o destino de todos eles.

            Aposto que foi a vadia da mulher dele quem planejou essa morte, afirmou Denisardo. Além de ser corno ainda foi assassinado por algum amante da piranha.

            Espero que o imbecil tenha se livrado dos documentos que estavam com ele, teve uma lembrança Alfonsino. Vocês destruíram o material?

            Bartolomeu e Denisardo afirmaram positivamente. Havia sido trabalhoso para cada um, mas também compensava a eliminação de provas que poderiam levá-los para a cadeia. Questionado a respeito do seu silêncio, Castro confessou que o seu cortador de papeis havia estragado.

            A lâmina não cortava mais nada, justificou Castro. Rasguei mais de cinquenta folhas de papel com as mãos, mas era uma tarefa impossível destruir tudo aquilo sozinho.

            O que você fez com o restante, perguntou Bartolomeu.

            Eu enterrei, respondeu Castro. Fiz um buraco bem fundo, joguei água até a metade e depois cobri com terra. Fiquem tranquilos, amigos. A natureza vai acabar o meu trabalho. Nunca saberão que participamos dessa imensa rede.

            Eu fui muito explícito nos comandos que tinham de ser obedecidos, falou mais alto Alfonsino.

            Calma, tentou apaziguar Castro. Você deveria estar preocupado com o Edilberto.

            Esse era o quinto integrante que ainda não havia comparecido. Castro contou o boato que lhe chegara aos ouvidos: Edilberto fugira para o exterior e estava embarcado em um cruzeiro nos mares orientais.

            Outro filho da puta, gritou batendo na mesa Bartolomeu.

            A cúpula do partido não vai gostar nada quando ficar sabendo disso, preocupava-se Alfonsino. Vocês sabem qual é a nossa posição e qual é a deles nesse esquema. Somos apenas servidores públicos administrativos, eles são deputados, senadores e ministros. Se essa história for tornada do conhecimento público, nem o ministro João Remocaim conseguirá salvar a nossa pele dessa vez. Ele foi muito explícito quando disse que já tinha se arriscado uma vez, mas que nos deixaria à própria sorte se fôssemos estúpidos de sermos apanhados novamente.

            Estou pensando em sair do esquema, disse, de cabeça baixa, Castro.

            Você não pode sair do esquema, sentenciou Denisardo.

            Ele tem razão, concordou Alfonsino. Não quero mais saber dos seus dilemas morais. Você é tão corrupto quanto qualquer outro que esteja ao redor desta mesa. Você aceitou da primeira vez, fez discursinho de que era errado, mas aceitou a bolada na conta bancária. Topou uma segunda, mas disse que só queria garantir uma boa educação para as filhas. Não foi essa a sua justificativa? E o que aconteceu depois do seu divórcio? Nunca mais deu atenção às meninas. Eu lhe conheço muito bem, seu moralista de araque. Está gastando o dinheiro com prostitutas e não compra um livro para as filhas.

            Castro engoliu secamente qualquer tentativa de resposta após ouvir de Bartolomeu que ele somente sairia do esquema se quisesse fazer companhia a Albuquerque no cemitério.

            Vamos pedir o almoço, disse Alfonsino. Estou com fome e não quero discutir o próximo assunto de barriga vazia.

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