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Mostrando postagens de Maio, 2013

Pés de Poeta

Sentado em uma cadeira de madeira, os pés apoiados em outra igual logo à frente, o descanso em sua terra natal chegava ao sétimo dia. Sem camiseta, vestindo apenas uma bermuda encarnada, grandes óculos escuros, que lhe tapavam metade do rosto, e chinelos com uma pequena bandeira do Brasil, a pele enegrecida de António Poeta brilhava ao sol do verão de Luanda. Dentro de três dias teria que rumar novamente para a Espanha e se apresentar ao clube para os treinamentos preparativos para a disputa do segundo turno da liga de futebol. Embora ainda adorasse a prática esportiva, depois de seis anos morando na Europa, o jogador sentia um pouco de pesar por deixar o verão africano e retornar ao frio de Madri.
O irmão caçula, Daniel, aproximou-se e puxou uma cadeira ao lado de António. Para o mais moço, o outro era um exemplo, um ídolo que, antes dele, havia habitado o mesmo ventre em que fora gerado. Daniel olhava admirado para o irmão e imaginava os grandes estádios tomados por apoiadore…

500 curtidas

500 curtidas, gostos e likes na fanpage.


Obrigado a todos que leem, acessam, comentam e compartilham meus contos e poemas pelo Facebook.

Brasileiros, angolanos, portugueses, moçambicanos e leitores de outras nações, agradeço pela atenção que este quinhão literário tem merecido de vocês.

Esse é apenas o começo. Infelizmente, não posso divulgar tudo o que escrevo na internet, pois tenho participado de concursos literários que exigem textos inéditos, por isso muitos contos e um romance estão esperando a leitura de vocês em livro impresso (ou e-book, talvez).

Continuarei divulgando o meu trabalho e contando com a leitura e a participação de todos. Gosto de críticas, então tanto o blog quanto a fanpage no Facebook estão abertos para que expressem as suas opiniões.

Um grande abraço,
Pablo Antunes.
http://literomaquia.blogspot.com
http://facebook.com/literomaquia

"Sinisdestra": 11

"Sinisdestra" é um livro de contos interligados por um tema comum a todos.
Você encontra as partes anteriores nas postagens antecedentes.


11.
Com os olhos escrutinadores mirando os livros expostos na vitrine, o exemplar desejado ainda não havia sido localizado. Muitas obras haviam sido retiradas do mercado desde o acordo de cessar fogo. Anexado ao inimigo histórico, o país, por meio das alianças entre antigos ocupantes do governo e novas lideranças invasoras, pretendia reescrever a própria história. Consultando o relógio de pulso, Joaquim Leão percebeu que ainda faltavam dez minutos para a abertura da loja. Atravessou a rua e foi beber um café na padaria, enquanto aguardava os minutos em que as portas liberariam a sua entrada. Ouviu de soslaio a conversa que vinha do balcão, onde o proprietário do negócio e um cliente discutiam os rumos políticos do país. Não havia um consenso sobre ter evitado uma aniquilação maior em uma guerra já perdida ou aguardar o apoio de organismos int…

Acordei com a responsabilidade de ser eu

Acordei com a responsabilidade de ser eu
o espelho refletia o mesmo de ontem
fui eu quem fez
fui eu quem deixou de fazer
eu sou tão eu
e já não cabe em mim
esse peso de ter sido eu
por essa vida inteira

Ser tu teria os seus inconvenientes
faltaria prática nesse ser tu
seria a tua vida roubando a minha

Ele é o terceiro nessa ordem
com ele nem falo
apenas falamos dele
como agora em que não troco meu eu pelo dele
se eu fosse ele
não trataria mais comigo mesmo
seria sempre a falar com um eu por mais distante

Não cogito essas pessoas do plural
o eu sozinho já me pesa
ser eu e outro mais
não é algo que se queira suportar

Neste mundo em que somos tão iguais
em nossas inúmeras diferenças
sou o que sobrou de mim
sou o que nasceu de mim
o resultado dessa experiência
disso que chamamos vida
desse eu, desce eu, subo eu
e tu e ele e todos
somos muitos eus separados
por nossos nós desatados
todos enclausurados
no seu eu interior

A mulher nua

Havia uma mulher nua na esquina. Vi de relance. Vi quase não vendo nada. A mulher nua estava em uma esquina; eu, na outra. Nossas trajetórias se encontraram na mesma rua, uma linha reta, mas com o pouco que vi, apenas percebi que ela estava nua. Duas ruas transversais nos separavam. Eu seguia um caminho, ela o cruzava em disparada. Tivesse eu passado trinta segundos antes, ou tivesse ela se atrasado meio minuto, estaríamos de frente um para o outro. Uma rota de colisão. Estivéssemos tão próximos, poderia lhe perguntar o porquê de estar nua. Por que estava nua na rua, mulher? O fato não teve outra testemunha. Toda a nudez foi apenas para os meus olhos. Foi tão rápido, uma correria, e meus olhos não enxergam muito bem à distância. Não sei se era bonita. A pele era branca, mas não era leitosa. Talvez gostasse de praia. A mulher nua talvez passasse horas no sol defronte ao mar. A morenice que os genes não lhe deram, haveria o sol de tratar. A mulher estava nua, mas não percebi marcas de bi…

"Sinisdestra": 10

"Sinisdestra" é um livro de contos interligados por um tema comum a todos.
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10.
O velho automóvel que servia à família há mais de vinte anos era carregado com os pertences de maior valor sentimental. O caminhão de mudanças era ocupado apenas pelos móveis que caberiam na nova morada. Haviam se desfeito do sofá com quatro lugares, da grande mesa de jantar e suas dez cadeiras, da estante de madeira envelhecida que recebia todos os objetos feitos pelo artesanato local, além do velho fogão à lenha que ocupava o canto mais aconchegante da cozinha. Nada disso teria lugar no apartamento que passariam a ocupar, quando as lembranças do velho casarão seriam apenas imagens, sensações, cheiros de um passado que não resiste à flecha do tempo.
Isso é tudo papai, perguntava Analice.
Isso não é nada, respondeu entristecidamente Seu Casemiro. Saio daqui e deixo a minha alma na velha casa, a morada da nossa família, construída por meu av…

Quando gélida encontrei-te

Quando gélida encontrei-te,
ao humor do vento que do norte escapa,
desejei que o calor da poesia minha
fizesse o rubor da face tua.

E se hoje lembro-me dos sabores
de beijos que nasceram quentes,
procuro desfazer minha saudade
na memória que ainda falha.

E se escapa-me a voz da boca tua,
recorro aos sonhos meus;
delírios de um jovem amante,
amador quando jura amar-te.

E se ontem faltaste ao lado meu,
hoje esperei-te novamente,
sabendo que o futuro porta a chave
e o nosso amanhã é sempre mais distante.

A saudade marca o peito

A saudade marca o peito
mais do que a brasa quente,
que queima a pele viva
e tortura um dos sentidos.

A saudade é invisível,
dói tão somente dentro,
mas perdura pelo tempo,
parecendo a própria morte.

A saudade inunda um cálice,
com lágrimas de apelo,
um pranto agudo e prolongado,
uma enxurrada em um pesar.

É inconstante, é duradoura,
a saudade é o amor
traduzido na vontade
de amar um pouco mais.