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"Sinisdestra": 6

"Sinisdestra" é um livro de contos interligados por um tema comum a todos.
Você encontra as partes anteriores nas postagens antecedentes.


6.

A viúva recebia as condolências de amigos e admiradores do marido na sala própria para a realização do velório no cemitério municipal. Vaidosa e elegante, aquela era a primeira ocasião em que muitos dos habitantes da cidade a viam sem qualquer maquiagem, nem mesmo um risco de batom a lhe enfeitar os lábios. Sua vestimenta era preta conforme a tradição, um vestido longo que lhe cobria as canelas, tão diferente dos que estavam esquecidos em seu guarda-roupa, aqueles coloridos que lhe deixavam os joelhos e parte das coxas à mostra. Enfim, Valquíria poderia enterrar o marido. Ela sofreu tanto quanto ele nos últimos quatro meses, contudo a diferença era que ela herdara uma vida destroçada, enquanto ele encontrara na morte o cessar do padecimento por sua bravura heroica.

É preciso ser forte nesta hora, dizia uma senhora. Agora, ele encontrou o descanso merecido, suspirava um antigo conhecido. O seu marido foi um herói, um motivo de orgulho para toda a cidade, atestava uma jovem acompanhada do filho pequeno. Se você precisar conversar com alguém, me ligue, arriscava a sorte um sujeito mais ousado. Creia nos planos de Deus, porque Ele nunca falha, testemunhava um crente.

Valquíria, em baixo tom, agradecia pela atenção e comiseração que lhe eram dedicadas. Próximo à viúva estava o pequeno Leonel, batizado com o mesmo nome do pai. Com apenas seis anos, a criança comparecia pela primeira vez a um velório. Dentro do esquife de madeira nobre, pela derradeira oportunidade, o menino via o corpo do outro Leonel, de seu pai, o homem que mobilizara centenas de simpatizantes que lhe vinham prestar uma última homenagem.

Leonora, a filha mais velha, há pouco deixara a sala onde muitos desconhecidos velavam seu pai. Sentada embaixo de uma figueira jovem, a adolescente procurava um momento de recolhimento. Ao mesmo tempo em que vivia intensamente o sofrimento da perda, não queria compartilhá-lo com a comoção popular demonstrada por muitos curiosos e tantos mais admiradores de seu pai.

De repente, próximo ao caixão, começa a se ouvir um burburinho. Ribamar, um velho sindicalista se exaltou ao perceber que o vereador Daniel Remocaim acabara de ingressar no recinto em que era realizado o velório. Enquanto este, acompanhado de dois guarda-costas, tentava se aproximar do corpo de Leonel, o sindicalista o afrontava com acusações de descaramento, sem-vergonhice, e demais ofensas morais à sua família, à qual era atribuída a responsabilidade por haver entregue o país aos invasores.

A viúva pediu que os altercadores suspendessem o embate, porém não foi ouvida. Outros reiteraram as palavras de Valquíria, acrescentando que estava sendo cometido um desrespeito ao morto, um herói que não merecia um espetáculo tão deplorável em seu adeus. Os ânimos, contudo, estavam em ebulição, e as pessoas na sala se dividiam entre apoiadores de Ribamar, defensores da família Remocaim e aqueles que solicitavam o fim do debate político em ambiente tão pouco propício. O pequeno Leonel estava agarrado à perna da mãe, assistindo atordoado à cena que ignorava a presença de seu falecido progenitor.

Chega, gritou Leonora, de volta ao velório. Respeitem o meu pai que jaz neste ataúde. Meu pai jamais compactuaria com esta representação lamentável. Àqueles que não lembram o porquê de estarmos aqui, vou lhes iluminar a memória. Este homem a quem chamam de heroico Leonel, meu pai, foi o responsável pelo salvamento de trinta vítimas do ataque a bombas pelo exército invasor, que destruiu o prédio das telecomunicações em nossa cidade. Como bombeiro, tendo integrado a corporação por mais de vinte anos, sempre aceitou que a sua missão era salvar vidas, mesmo que para isso pusesse em risco a própria. Foi o que aconteceu, quando após respirar uma quantidade muito grande de fumaça tóxica, se tornou mais uma vítima da guerra, mas não sem antes ter salvo a vida de muitos feridos. Após quatro meses hospitalizado, respirando com a ajuda de aparelhos, seus pulmões deteriorados não resistiram aos danos causados pela inalação da fumaça. Hoje, a minha família chora a perda de um pai, mas trinta outras estão inteiras graças à bravura deste grande herói chamado Leonel.

A sala irrompeu em uma salva de palmas para a tímida Leonora.

Ainda pode-se ouvir baixinho a voz de Ribamar afirmando que os Remocaim haviam entregado o país de bandeja para o inimigo.

Meu tio, João Remocaim, evitou a morte de mais inocentes como Leonel ao negociar a paz com os invasores, retrucou pela última vez o vereador. Depois ambos deixaram o velório ao perceberem que o debate político não era bem acolhido no ambiente.

Puxando uma folha de papel do bolso da calça, Leonora pediu a atenção dos presentes para ler um poema escrito pelo pai.

Diante de seus mistérios, tantos são os seus encantos,
muitas perguntas por fazer, poucas respostas há de dar,
pois a vida é um fato atestado em meu pesar,
confirmado no amor imenso que há em mim,
uma certeza imprecisa encerrada por um fato terminal.

Até lá, enquanto o ato de início
não encontra o ato de encerrar,
minha vida hei de habitar,
como um inquilino bem acomodado,
um passageiro encantado por paisagens
que seus olhos nunca cansam de admirar.

O passado é memória, vida já vivida,
o futuro, tempo sempre além, onde nunca se está,
a vida somente é possível no presente,
regalo que desfruto com deleite,
pois deste presente não se leva mimo,
apenas a vontade de seguir em frente.

Outra salva de palmas homenageava o herói morto em defesa da vida que tanto prezava, não apenas a própria, mas a da humanidade. Houve um intenso revezamento de voluntários para levar o caixão até o túmulo. Durante o trajeto, inúmeros homens e mulheres carregaram as alças do ataúde, oferecendo o seu esforço como uma derradeira atitude de deferência. A vida se valoriza sobremaneira após a demonstração de sua fragilidade.

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