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Mostrando postagens de 2013

"Sinisdestra": 17

"Sinisdestra" é um livro de contos interligados por um tema comum a todos.
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17. Atrás da porta de madeira maciça, no interior do recinto, uma voz grave, um timbre de um baixo de teatro lírico, pedia a senha ao recém-chegado que precisava dar provas de que era merecedor de lhe ser concedido o privilégio de entrar. Do lado de fora, o outro homem se aproximou da porta e proferiu o código que lhe garantia o acesso. Companheiro Hermes se apresentando, disse o recém-chegado. Em nome de quem, perguntou o que fazia a segurança da entrada. Venho do Quarto Comando em nome da libertação, respondeu. Junte-se aos demais na sala de reuniões, instruiu o outro. Atendendo pelo codinome Hermes, aquela era a primeira reunião de cúpula da qual participava. As acomodações eram modestas para não chamar a atenção em um bairro popular, uma área que muito sofrera as consequências da guerra. Naquele ambiente mal iluminado, em que as janelas perman…

Conheça a capa do livro "De pernas abertas"

Acima, a capa do meu livro De pernas abertas. A arte da capa é de Natalia Caruso.


☛ Lançamento do livro "De pernas abertas" de Pablo Antunes (Ed. Multifoco)
Data: 15/02/2014 (sábado)
Horário: 16h
Local: Empório Canela
Endereço: Rua Felisberto Soares, 258, CEP 95680000, Canela/RS.

Lançamento do livro "De pernas abertas"

Lançamento do livro "De pernas abertas" de Pablo Antunes (Editora Multifoco)
Data: 15/02/2014 (sábado)
Horário: 16h
Local: Empório Canela
Endereço: Rua Felisberto Soares, 258, CEP 95680000, Canela/RS, Brasil.

Conheçam também a página especial do meu livro:
http://www.facebook.com/depernasabertaslivro

Evento de lançamento:
https://www.facebook.com/events/321396011332502/
Sinopse: De pernas abertas, escrito por Pablo Antunes, publicado pela Editora Multifoco, é um pós-romance dividido em partes que acompanham o tempo cronológico e o tempo pessoal dos personagens. Diferentes gêneros textuais e pontos de vista são usados para compor e ligar a história. Essencialmente, o enredo é contado por um narrador em terceira pessoa, pelas “censuras” representadas por tarjas pretas que ocultam o que ainda não pode ser sabido (uma representação do inconsciente freudiano), por um curriculum vitae que descreve o marido com toda a sua formalidade, pelo texto teatral que leva o leitor para dentro do…

Uma semana de premiações

No sábado, 30/11/2013, fui premiado com o 1º lugar no Concurso Contos de Inverno da Sucelus Livraria em Gramado/RS com a obra "Coelho e Guerra". A história que narra um inusitado encontro entre duas pessoas muito diferentes, será publicada no livro Contos de Inverno em 2014.



Na quarta-feira, 27/11/2013, recebi a premiação pelo 3º lugar no I Concurso de Contos e Crônicas de Flores da Cunha/RS com a obra "O pai que não foi". O conto que narra a construção da identidade a partir da visão dos outros pode ler lido no blog.


Saiba mais sobre esses eventos na fanpage




Concurso "Contos de Inverno" da Sucelus Livraria

Resultado do I Concurso de Contos e Crônicas de Flores da Cunha/RS

Foi uma segunda de primeira

"Sinisdestra": 16

"Sinisdestra" é um livro de contos interligados por um tema comum a todos.
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16. No silêncio da noite as horas eram surdas; a sensação de paz, emudecida. Dois breves estalidos de vidro se quebrando interromperam a madrugada morta ainda mais escurecida com o apagar dos postes de iluminação pública. Nas sombras, dois sujeitos observavam ao seu redor, cuidando as casas da vizinhança, esperando que olhos curiosos acendem as luzes de seus dormitórios e mirassem o que ocorria na rua. Se passaram dez, trinta, sessenta segundos e ninguém apareceu para surpreendê-los. A calada da noite voltara ao seu silêncio sepulcral, no qual apenas os habilidosos predadores noturnos conseguiam tomar o que queriam.
A noite será nossa parceira, disse Leve, enquanto apontava para o casarão abandonado desde que a guerra havia irrompido.
Vamos entrar, respondeu o grandalhão Marreta.
Depois de pularem o muro desguarnecido, os dois assaltantes entrar…

Faz tanto que te amei

Depois de tudo

O pai que não foi

Uma chuva fina escurecia o céu invernal. Desperto às 6 horas de um domingo, Gaspar, deitado na cama ao lado da esposa, tentava recordar as imagens do recente sonho que tivera. Quem afinal era o homem que lhe dissera para entrar, mas que do mesmo jeito impassível lhe ordenara para sair? Embora buscasse um sentido para essa vivência onírica, não conseguia ligar os pontos e formar uma imagem explicativa. O trajeto na estrada em que todos os transeuntes, exceto ele, caminhavam de costas, corpos que não tinham braços, mas um olho na nuca, também não encontrava qualquer entendimento em sua racionalidade.
Vestido com o pijama, os chinelos e uma capa de chuva, Gaspar foi até a frente de sua casa para buscar o jornal arremessado pelo entregador. O plástico que envolvia o periódico manteve as suas folhas secas, ao contrário dos pés dele, que deixaram pegadas molhadas no tapete da entrada da residência. Enquanto, na cozinha, preparava um café passado na cafeteira, Gaspar folheava o jorna…

O roubo

"Sinisdestra": 15

"Sinisdestra" é um livro de contos interligados por um tema comum a todos.
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15.
O amplo estúdio em que a banda ensaiava agora era uma memória dolorida do passado deles, de um tempo em que podiam lotar todas as casas de espetáculos da região, quando o alto cachê os fazia esquecer a comum história de uma infância pobre. Terminada a guerra, a população procurava diversão novamente, mas dessa vez já não podia pagar caro pelas atrações, com isso os artistas medíocres consolidavam as suas reputações de entretenidores, o que, por ora, bastava para amainar o sofrimento das pessoas. Satisfeito por não ter perdido nenhum integrante do grupo durante os conflitos, Miguel Boafé, saxofonista e líder da banda, se reunia com seus colegas mais uma vez nos fundos de um cinema abandonado, onde o proprietário cobrava uma taxa de baixo custo para que pudessem ensaiar. Sonhando com a volta ao sucesso de outrora, Miguel Boafé fazia planos …

Coelho e Guerra

Depois de dois dias chuvosos, as nuvens cinzentas ainda pairavam sobre a cidade. Uma trégua do gotejar, no entanto, dava uma pausa ao desfile de sombrinhas e guarda-chuvas que estava se tornando costumeiro. Em um pequeno apartamento, bem localizado em uma rua transversal que corta a principal, o sistema de calefação parara de funcionar novamente. O silêncio mortal que tomou conta do equipamento fez com que ele se levantasse da cadeira posta em frente ao computador. Com o punho fechado, uma pancada, duas, três, mas a solução primária não resolveu o problema. Nem mesmo os xingamentos que arrepiariam os pelos de um bravo foram suficientes para fazer o aquecimento tornar a funcionar. Talvez o aparelho não tenha entendido coisa alguma dos termos de baixo calão que a ele foram dirigidos, pois a inscrição made in China já faria supor que o português não era bem compreendido. Na parede da sala, oposta a onde estava o monitor do computador, um relógio analógico com um termômetro acopl…

Um poema em cada árvore

A zona de amizade

Havia um impasse, uma insegurança típica daqueles que foram além dos seus limites e não sabem como voltar. Era uma daquelas situações em que muito havia sido dito, em que as palavras excediam os olhares e davam uma complementaridade a cada gesto de modo que não se podia esquecer. Era uma ilusão tentar negar o que havia acontecido. Os adultos não podem simplesmente se esconder em uma toca e esperar que o mundo pare de girar. Por mais que haja situações para as quais jamais se tenha sido preparado, a vida exige um protagonismo que talvez não emergisse fora de instantes limítrofes, mas assim são as surpresas, como se diferenciam as boas e as más recordações. Eles se olhavam apreensivos depois de uma conversa, que se transformou em discussão, depois em conversa novamente, e um pouco de negação, autoacusação, desculpas, arrependimento despontaram ao longo de pouco mais de trinta minutos em que a relação era discutida.
Que merda, eu te amo, disse Sidnei, reconhecendo instantaneamente o grand…

Uma noite para a memória

A luminosidade de um amanhecer ensolarado penetrava pelas frestas da persiana. Tentando puxar o lençol para cobrir o rosto, Verônica não conseguia mover a coberta, porque estava presa sob o corpo de Fred. Depois de olhar o adormecido que havia conhecido na noite anterior, procurou pelo relógio, mas não conseguia decifrar o enigma dos ponteiros sem suas lentes de contato. Tateou pela mesa de cabeceira e encontrou o seu telefone celular. Trazendo o aparelho bem próximo dos olhos, viu que eram 7 horas e 3 minutos. Péssimo horário para despertar em um sábado pela manhã, logo após uma madrugada que fora longa e repleta de atividades. Verônica levantou-se, cansada, precisando de descanso, pisou em uma camisinha usada que estava jogada no chão, e correu a cortina branca para tentar escurecer o quarto. Um pensamento recriminador lhe ocorreu ao lembrar que esse tipo de cortina servia para a sala de estar, mas não para o quarto. Iria providenciar uma que tivesse um tecido mais espesso e escuro.…