LiteromaQuia ::: textos de Pablo Antunes é o blog que reúne alguns dos meus textos, principalmente narrativas breves e poemas.

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sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

Por que não celebrei o Natal

"Por que não celebrei o Natal" por Pablo Antunes

Assim como 5 bilhões de habitantes deste planeta, não sou cristão. Nas mais de três décadas vividas, cresci com uma avó católica, estudei em uma escola luterana, frequentei um centro espírita, de longe admirei o budismo; contudo, afastei-me do sentido sacro das religiões para observá-las e admirá-las por seu lado antropológico e mitológico. Atualmente, para mim, o cristianismo adquiriu um caráter de mitologia, assim como as antigas crenças gregas e egípcias. Portanto, celebrar o nascimento de Jesus de Nazaré seria o mesmo que comemorar as façanhas de Zeus ou de Osíris. Reunir-me com a família e amigos para festejar um acontecimento que não me toca mais seria o mesmo que preparar a ceia para o Ramadã ou o Hanuká. Nada disso me envolve mais. O dia 24 de dezembro se tornou como os dias 8, 12 ou 20, 28. Portanto, resolvi não fingir a mim mesmo ao desejar um feliz alguma coisa sem significado nenhum para mim.

Livre dos dogmas ou das certezas absolutas das religiões, sou um livre pensador sem receio de questionar o que for. Prefiro aprender com minhas dúvidas, com minhas indagações e com cada descoberta a prender-me a certezas que jamais conseguiram me convencer. Tenho um conhecimento relativamente bom das histórias bíblicas do Velho e do Novo Testamento, pois, como escritor, reconheço a força das suas narrativas na construção de mitos. Como psicólogo, interessam-me as variedades dos tipos psicológicos e como as personalidades influem na construção do imaginário do homem moderno. Não sendo cristão, admiro a mensagem de tolerância, de respeito e de amor propagada por Jesus Cristo. Aliás, sigo, desde quando estava sendo alfabetizado, um ensinamento que muitos atribuem a Jesus, mas que foi pronunciado pelo filósofo chinês Confúcio cerca de cinco séculos antes do nascimento do outro. Dizia ele: "Não faças aos outros o que não queres que façam a ti". Desde criança, esse é o mote da minha vida. Não preciso de nenhum regulador a me controlar para impedir que o mal seja feito. Basta-me saber que não sou melhor do que ninguém, nem tenho o direito de causar dano a outros seres, portanto não me refiro apenas a humanos, mas também a outras formas de vida.

Na noite de 24 de dezembro, senti uma paz interior possível apenas aos que são autênticos e verdadeiros consigo mesmos. Em minha busca pelo autoconhecimento e por erradicar a hipocrisia, preparei o jantar, ouvi jazz e li Dostoiévski. Como em uma noite qualquer, mas com o orgulho de não precisar fazer algo apenas para agradar a outras pessoas (mesmo aquelas que me são muito caras) ou para seguir no fluxo, apenas por ser o que todos fazem.

Aos que veem sentido no Natal, aos que são tocados por seu sentido religioso – e não apenas comercial –, desejo ótimas celebrações a cada solstício. Respeito todas as crenças, da mesma forma que espero respeito por minha incredulidade.


segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

TerŞarau de 15 de dezembro

Foi uma grande satisfação o nosso encontro da última terça-feira no derradeiro TerŞarau de 2015, quando abordamos um tema tão relevante para a contemporaneidade: "Viver com as diferenças". Agradeço a presença do público que compareceu ao Aroma Literário para prestigiar o evento e para debater o assunto. Certamente, foi bastante enriquecedora a nossa troca de ideias e experiências.


























Os poemas e textos recitados e declamados foram os seguintes:
"Uma toupeira na calçada" de António Manuel Pires Cabral
"Abandonar os nossos preconceitos" de Henry David Thoreau
"O Ensina-me" de Bertold Brecht
"Desejos vãos" de Florbela Espanca
"O constante diálogo" de Carlos Drummond de Andrade
Trecho de "O centauro no jardim" de Moacyr Scliar
"Viver sempre também cansa" de José Gomes Ferreira
Trecho de "Dama da noite" de Caio Fernando Abreu
"Sobre a riqueza que é aprender com as diferenças" de Pablo Antunes
O TerŞarau tira umas pequenas férias e retorna em 15 de março de 2016, na terceira terça-feira do mês, no Aroma Literário em Canela/RS.

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quarta-feira, 18 de novembro de 2015

TerŞarau de 17 de novembro

Que noite agradável a de ontem, quando nos encontramos no TerŞarau para abordarmos o tema "As mentiras que contamos". Agradeço a presença do público que lotou o Aroma Literário para prestigiar o evento.

Em suas variadas manifestações, a mentira serve tanto para fazer algo parecer o que não é, quanto para falsear o relato de um evento passado, além de quebrar uma expectativa criada pela palavra de alguém. A mentira também é uma forma de tentativa de manipulação da realidade, ou seja, a mentira é um querer ser verdade, que muitas vezes se manifesta não apenas em relação ao outro, mas também como um auto-engano.































Os poemas e textos recitados e declamados foram os seguintes:
“A Verdade e a mentira” de Patativa do Assaré
“Garçom…” de Tati Bernardi
“Mentiras” de Florbela Espanca
Trecho de “De Pernas Abertas” de Pablo Antunes
“Dois Rumos” de Carlos Drummond de Andrade
“Mentiras que poderiam ser verdades” de Mia Couto
“O mentiroso” de Jean Cocteau
“A implosão da mentira” de Affonso Romano de Sant'Anna

A última edição do ano ocorrerá em 15 de dezembro.
Como sempre, na terceira terça-feira do mês no Aroma Literário em Canela/RS.

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quarta-feira, 21 de outubro de 2015

TerŞarau de 20 de outubro

Foi um prazer encontrar tantos amantes da cultura e da literatura no TerŞarau de ontem, 20/10, que tratou do tema "Encontros, Reencontros e Despedidas".

Vivemos em uma constante relação de alteridade desde o nascimento, o que inclui aproximações e afastamentos. Em cada encontro, reencontro ou despedida, estamos em contato conosco, com alguém, com o divino, com uma lembrança, com uma possibilidade. Ontem, nos encontramos para uma ótima noite de celebração da poesia e da prosa com a certeza de que a nossa breve despedida não é mais do que um "até a vista".


Os poemas e textos recitados e declamados foram os seguintes:
"Em todas as ruas te encontro" de Mário Cesariny
Trecho de "Coelho e Guerra" de Pablo Antunes
"Quantas vezes a insônia é um dom" de Clarice Lispector
Trecho de "Alice no país das maravilhas" de Lewis Carrol
"A Força desta nossa despedida" de Bernardo de Brito
Trecho de "Odisseia" de Homero
"Terra - 24" de Fernando Namora
"A despedida" de António Correia de Oliveira


A próxima edição ocorrerá em 17 de novembro.
Como sempre, na terceira terça-feira do mês no Aroma Literário em Canela/RS.




















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quarta-feira, 16 de setembro de 2015

TerŞarau de 15 de setembro

No TerŞarau de ontem, 15/09, tratamos de um tema da maior relevância: Um Mundo em Transformação.
Diversos são os desafios do mundo atual, afinal vivemos em um período em que o contraditório emerge sem que haja tanta tolerância para o diálogo. Agradeço a participação dos presentes que contribuíram para a reflexão e o debate centrados em alguns pontos como: a democracia em transformação; a sociedade de consumo; o fundamentalismo religioso e política internacional; as mudanças climáticas; as relações afetivas.

Foram recitados e declamados os seguintes textos:
"À trágica morte de rainha de França, Maria Antonieta" de Manuel du Bocage
"A Ilusão Política das Grandes Manifestações Populares" de Fernando Pessoa
"O Analfabeto Político" de Berthold Brecht
"Sociedade do Desperdício" de Agustina Bessa-Luís
"Eu, Etiqueta" de Carlos Drummond de Andrade
"Ser Religioso com Vantagem" de Friedrich Nietzsche
Excertos de "A pipoca" de Rubem Alves
Trecho de "A transfiguração pela poesia" de Vinicius de Moraes
"A Vergonha e a Injustiça Não Existem na Natureza" de Gonçalo M. Tavares
"As civilizações" de Mario Quintana
"Amores, Amores" de João de Deus
"Mude" de Edson Marques

A próxima edição ocorrerá em 20 de outubro.
Como sempre, na terceira terça-feira do mês.











































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quarta-feira, 19 de agosto de 2015

TerŞarau de 18 de agosto

No TerŞarau de ontem, 18/08, foi prestada uma homenagem ao escritor Mário de Andrade, figura capital do Modernismo brasileiro. Principal nome da Semana de Arte Moderna de 1922, Mário de Andrade é um importante personagem no avanço das manifestações artísticas brasileiras no século XX, tanto como escritor quanto crítico e musicólogo.
Foram recitados e declamados os seguintes textos:
“Eu Sou Trezentos...” de Mário de Andrade
“Tu” de Mário de Andrade
Trecho do “Prefácio Interessantíssimo” de Mário de Andrade
“Ode ao burguês” de Mário de Andrade
“Pronominais” de Oswald de Andrade
“Os sapos” de Manuel Bandeira
Trechos dos capítulos I, VII, IX e XI de “Macunaíma o herói sem nenhum caráter” de Mário de Andrade
“Lundu do escritor difícil” de Mário de Andrade
“Moça linda bem tratada” de Mário de Andrade
“Descobrimento” de Mário de Andrade
“Mário de Andrade desce aos infernos” de Carlos Drummond de Andrade
“Quando eu morrer quero ficar” de Mário de Andrade
Agradeço a presença de todos que prestigiaram este TerŞarau.
A próxima edição ocorrerá em 15 de setembro, como sempre na terceira terça-feira do mês.
















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terça-feira, 21 de julho de 2015

TerŞarau de 21 de julho

Hoje à noite, 21/07 às 19h30, teremos mais uma edição do TerŞarau em Canela/RS.

Nesta edição, recebo o cantor Pedro Aquino para tratarmos do tema SOMOS LATINO-AMERICANOS.


Desde a Baixa Califórnia até a Terra do Fogo, dividimos similaridades e diferenças em uma região cheia de particularidades. Na busca por sua própria identidade, a América Latina vem recebendo populações de todo o mundo, o que a torna um caldeirão de culturas e experiências de vida.

Apoiados em canções, poemas e outros textos, o TerŞarau vai abordar essa condição que nos faz latino-americanos.






quinta-feira, 16 de julho de 2015

Novos contos na rede

Depois dos Contos Perigosos e antes do próximo livro, publiquei dois novos contos em formato e-book pela Amazon.

DEBAIXO DO NEGROR FUNESTO: Uma população é observada por olhares de visitantes indesejados. Isso acontece debaixo de um negror funesto. Todos têm muitas perguntas, mas temem a resposta.
Leia em: http://www.amazon.com.br/Debaixo-negror-funesto-Pablo-antunes-ebook/dp/B011PPN98I/ref=sr_1_1?s=digital-text&ie=UTF8&qid=1437052786&sr=1-1

A MESMA VOZ QUE FALA E SE CALA: Qual a situação mais absurda que poderia acontecer em uma terapia? E se fosse o psicólogo a sugerir um assassinato?
Leia em: http://www.amazon.com.br/mesma-voz-que-fala-cala-ebook/dp/B011PU7VT6/ref=sr_1_2?s=digital-text&ie=UTF8&qid=1437052786&sr=1-2





segunda-feira, 29 de junho de 2015

Debate do livro "Contos Perigosos" em 15/07

Convido a todos para o debate do meu livro Contos Perigosos que será realizado no dia 15 de julho, às 19h30, no Aroma Literário (Av. Osvaldo Aranha, 378, Canela/RS).

Falarei sobre a gênese dos contos, as inspirações para a criação literária, entre outros temas relacionados. Como em um clube de leitura, a ideia é provocar o debate e a interação entre leitores e autor.

Marquem a data em suas agendas e compareçam.




sábado, 20 de junho de 2015

Sessão de autógrafos e bate-papo

Agradeço a participação dos amigos e leitores na sessão de autógrafos do livro "Contos Perigosos" e no bate-papo mediado por Janaína Poletti realizado ontem na Feira do Livro de Gramado. Apesar do frio congelante, senti o calor da presença de cada um.
Agradeço a oportunidade aos organizadores da Feira, bem como a presença do patrono Airton Ortiz, que tornou tudo ainda mais especial.











quinta-feira, 18 de junho de 2015

Sessão de autógrafos e bate-papo em Gramado/RS

Nesta sexta-feira, 19/06 às 18 horas, estarei na Feira do Livro de Gramado para uma sessão de autógrafos do livro "Contos Perigosos" e para um bate-papo a respeito do meu trabalho literário além dos livros.

Além dos livros, teremos telas e cubos em exposição, porque a literatura deve alcançar os leitores independentemente do formato.

Venha participar desse encontro.

O quê? Sessão de autógrafos e bate-papo com o escritor Pablo Antunes
Quando? Sexta-feira, 19/06 às 18h
Onde? Feira do Livro de Gramado (Rua Coberta, sala de autógrafos 1)






terça-feira, 16 de junho de 2015

TerŞarau de 16 de junho

Hoje à noite, 16/06 às 19h30, teremos mais uma edição do TerŞarau em Canela/RS.

Nesta edição, recebo a artista plástica Beth Gloeden para tratarmos do tema O OLHAR PARA O OUTRO. Traçando um paralelo entre as obras dos artistas Van Gogh e Vik Muniz com textos literários, vamos abordar a importância da empatia e da relação com o outro.









sexta-feira, 29 de maio de 2015

Encerramento da oficina de criação literária

Encerrou-se ontem, quinta-feira, 28/05, a oficina de criação literária que ministrei às professoras da rede municipal de Canela/RS.

Agradeço a todas as participantes que produziram textos de cunho ficcional, permitindo-se dar vasão à criatividade e à imaginação sob supervisão e apoio técnico. Parabenizo-as pelos trabalhos e pelo esforço. Certamente há mais talento literário em Canela do que julga o público em geral.

Agradeço à Secretaria Municipal de Educação e Cultura, especialmente à secretária Neusa Dossin e a Sandra Meyer de Souza.

Agradeço à Fundação Cultural de Canela por ceder o Espaço Nydia Guimarães para a realização da oficina, especialmente a Zita Frölich.

Se os livros podem mudar as pessoas, a literatura tem o poder de mudar o mundo.


A imagem é do jornal Integração de sexta-feira, 19/05.

terça-feira, 19 de maio de 2015

TerŞarau de 19 de maio

Hoje à noite teremos mais uma edição do TerŞarau em Canela/RS.
Desta vez, o tema é a SENSUALIDADE.



segunda-feira, 27 de abril de 2015

Como o poeta descreve um instante de tristeza




















































quinta-feira, 16 de abril de 2015

Oficina de criação literária

Compartilhando a notícia veiculada pela Prefeitura Municipal de Canela.
É uma grande satisfação poder realizar a oficina de criação literária com os professores da rede municipal.




























A notícia pode ser acessada no site da Prefeitura de Canela.

P.S.: onde lê-se "filósofo", leia-se "psicólogo".

sexta-feira, 10 de abril de 2015

Andava o cego à beira do abismo









































domingo, 5 de abril de 2015

As vidas de Sócrates Alvinho

      Do chão, caminhando rente ao muro de pedras sobrepostas iluminado pelos raios solares que aqueciam aquela manhã de outono, o gato estudava a melhor passagem entre a grade de ferro fixada sobre a divisa a separar a casa do filósofo da residência vizinha, que permanecia fechada há dois anos, ostentando uma desbotada placa de vende-se à frente. Comprimindo os membros inferiores contra o chão, agitando o traseiro, mantendo a cauda esticada como se servisse de leme, o felino foi distraído por uma formiga alada que executou um voo rasante sobre a sua cabeça. Como um boxeador, o gato desferiu golpes no ar, porém o inseto transgrediu a lei da gravidade e alçou alturas que o predador não podia alcançar. Concentrado, mais uma vez, no muro que tencionava ultrapassar, com um só salto, o felino se pôs sobre o muro e facilmente escapou entre as barras de ferro, desfilando a sua compleição elegante e esguia, em cuja natureza, forma mais bela não há. Seguindo em trajetória retilínea pelo jardim descuidado, o gato parou apenas para afiar as garras na velha laranjeira plantada há tantos anos na frente da casa vizinha. Como costumava fazer todas as manhãs antes das nove horas, pulou o outro muro da casa à venda em direção à calçada junto à rua. Com a cauda empinada, tomado por toda a sua confiança – não em pessoa, mas em felino –, passeava determinado sem demonstrar preocupação alguma com os cães, que latiam presos atrás dos portões das casas vizinhas. Entre ladros, ladridos e latidos, seguia o gato como o senhor das calçadas até se deparar com a residência amarela com teto revestido com as avermelhadas telhas de barro que se localizava na esquina de suas duas ruas preferidas. Na primeira via ficavam as suas duas casas: onde recebia carinho, abrigo e comida; na outra rua moravam as duas gatinhas siamesas, com quem ele tanto gostava de namorar. O seu mundo poderia ser resumido àquela quadra, a um cotovelo viário, um L, um cruzamento transversal. Um pedacinho do mundo, no qual havia encontrado a felicidade, onde viveria todas as suas vidas se, de fato, os gatos tivessem mais do que uma.

      Ao vê-lo se aproximando, o menino o chamou de Alvinho. Era um gato albino, seu nariz e as almofadas das patas eram de um delicado rosado despigmentado, enquanto os olhos tinham a matiz de um azul celestial, ora eclipsado pelo dilatar da pupila em ambientes de restrita iluminação. A pelagem branca era acariciada pela mãozinha negra do garoto, que abria um largo sorriso ao reencontrar o amigo de todas as manhãs. Desamarrando o cadarço do tênis, o menino sacudia o cordão provocando o gato com um divertimento irresistível. Às vezes, o garoto sofria um pequeno arranhão no pé ou na mão durante essas brincadeiras, mas entendia que esse jogo de instigar o instinto de caça do gato tinha os seus pequenos riscos que podiam ser ignorados em nome da diversão, que sempre superava as feridas. Naquela casa viviam o menino, a mãe e a avó. Para brincar com o garoto, o gato seguia uma rotina: a visita se dava no início do dia. Após o almoço, nunca encontrava o amigo. Embora fosse ignorante do calendário humano, o felino percebia que, pelo segundo dia consecutivo, a mãe estava em casa em um horário em que não costumava encontrá-la. A razão para isso parecia ser a avó acamada. O gato farejava algo diferente no ar, um odor de moléstia, como se a carne, tal qual a fruta, já tivesse passado do ponto de maturação – algo que os narizes humanos são incapazes de perceber. Entrando na casa, o felino passou reto pela porta da cozinha – normalmente o seu compartimento predileto – para encontrar a mãe sentada sobre uma poltrona posta ao lado da cama em que a avó estava deitada. Quanto mais perto da simpática senhora, o gato percebia o cheiro funesto. Sem pedir licença, deu um salto sobre os lençóis e se colocou próximo ao rosto de sua amiga adoentada. Embora a mãe tenha se espantado (também por ser quem tinha menos contato com ele), a avó sorriu e o chamou pelo nome: Alvinho. A voz saiu débil, mas terna. Enfraquecida, a mão da velha mulher afagava a cabeça do gato, acariciando a pelagem macia entre as pontudas orelhas. Com o crânio, roçando, esfregando, ele retribuía o carinho nos dedos e na palma da avó. A presença do gato acalmou a idosa, e por esse momento cessaram os gemidos – a terrível dor abdominal deixou de ser o centro de sua atenção. O ronronar felino ditava um novo ritmo para a cena. Emocionada, a mãe percebeu o bem que o gato fazia à mulher mais velha. De um modo diferente, ele era uma companhia como ela mesma jamais poderia ser. Com seu pelo branco e aveludado, o ronronar pronunciado, seus olhos azulados passavam uma tranquilidade a quem os encarava. O gato era puro afeto, uma sincera retribuição a quem tanto lhe dera carinho.

      Ao se conhecerem, a avó e o felino, em um tempo que o animal não saberia contar, foram tomados por um sentimento de simpatia mútua, uma amizade que nasceu facilmente. A velha senhora lhe serviu os restos de um frango desossado posto sobre um pires, juntamente a uma tigela com água. Reconhecendo o gesto solidário e generoso, o gato se aproximou e esfregou o seu corpo nas pernas da avó, demonstrando estar grato e contente pelo tratamento gentil que lhe fora concedido. Em seguida, o menino chegou e ficou animado com aquela fofa presença dentro da cozinha. Para o gato, aquele era o segundo humano com o qual fazia amizade na mesma manhã – já era suficiente motivo para gostar daquela casa. Titubearam em relação a como chamá-lo. A avó cogitou:
1) Branco. Bastante óbvio, uma referência direta à pelagem;
2) Neve. Apesar de combinar com a matiz, não tinha relação com o clima da cidade em que viviam;
3) Arroz. Rapidamente descartado. Não agradou, nem quando tentaram adaptar para Arrozinho, que soaria mais carinhoso.

      Percebendo que, de qualquer modo, todas as nomeações faziam referência direta à cor, a avó optou por Alvinho. Soava terno, ao mesmo tempo em que carregava uma dubiedade, sendo o felino o novo centro de afeto daquela família. O gato, certamente, era quem menos se importava como o nome que lhe fosse dado. São apenas sons humanos que não tem significado para alguém da sua espécie. Em algum momento, aprenderia que a combinação daqueles fonemas repetidos exaustivamente diziam respeito a ele, principalmente quando mencionados com amor. O gato mesmo não sabia o nome dos moradores da casa, pois para ele bastava miar, e dessa forma estava se comunicando, e sucintamente se fazia entender. No entanto, nesse momento em que a sua velha amiga estava doente, ele entendia a finitude da vida de modo natural, embora não compreendesse o tempo da mesma maneira que os humanos, queria ficar próximo a quem tanto apreciava. Para o gato havia apenas os dias e as noites, as manhãs de passeio, as tardes de quietude, e as aventuras noturnas; semanas, meses e anos eram desconhecidos, havia apenas a época de calor e a de frio, o clima seco e o chuvoso, o tempo em que as gatas entravam no cio. Junto à avó, sentia a mão dela a lhe afagar, ouvindo agradáveis sons incompreensíveis dirigidos a ele. De repente, um barulho vindo da cozinha lhe despertou a atenção. O gato virou as orelhas naquela direção, enquanto olhava fixamente para o dedo indicador da amiga a apontar para lá. Depois de esfregar a cabeça na mão da velha senhora, com um pulo alcançou o chão e foi até a cozinha, onde a mãe servia um prato de comida acompanhado de uma tigela com água. Sendo acarinhado pelo menino enquanto comia, o gato sentia confiança dentro daquela casa, e era um sentimento duradouro para quem não distingue o passado, o presente e o futuro, tudo era vivido no agora, no único lugar em que a felicidade faz algum sentido.

      Com sua natureza inquieta, um desejo de nunca se prender a um lugar, o gato deixava a casa amarela para retornar à outra residência, de onde tinha saído mais cedo. No caminho, cruzava novamente o terreno da casa com a placa de vende-se à frente, calculava o melhor espaço para saltar entre as grades de ferro sobre o muro de pedras e, em seguida, estava de volta. O filósofo o recebia com um carinho na cabeça, que seguia por toda a coluna vertebral até o final da cauda, sempre o chamando por seu nome: Sócrates. Mesmo desconhecendo o significado, o gato percebia que os sons ditos pelo homem eram diferentes de todos os emitidos pelas outras pessoas das redondezas – deveria ser de outro lugar, de alguma paragem que ele desconhecia. Por mais que o filósofo fosse diferente, o felino se sentia em casa e muito bem acolhido quando passavam as tardes juntos. Solitário, o homem ocupava boa parte do seu tempo lendo livros e jornais, bebendo xícaras de café, escrevendo um romance em frente a uma máquina repleta de botões e de uma tela brilhante ligada a outra que emitia um som curioso toda vez que cuspia folhas de papel. Como de costume, o homem serviu um pote de ração, um alimento farinhento e seco se comparado com os pedaços de carne, frango e peixe que costumava ganhar pela manhã na outra casa; contudo, o aroma era delicioso para o seu olfato felino. Diante do amontoado de grãos que se empilhavam uns sobre os outros, ele não conseguia resistir a dar umas boas bocadas. Durante as tardes, o gato dividia o período em que ficava deitado no colo do homem e o tempo em que dormia sobre uma almofada colocada ao lado da cadeira de trabalho do filósofo, de onde ouvia o barulho das teclas pressionadas em intervalos irregulares. Na maior parte do tempo entendiam-se em silêncio, nem o gato precisava miar nem o humano tinha de emitir aquela enorme quantidade de sons que as pessoas usam para se comunicar. A compreensão de que um gostava do outro vinha de uma linguagem corporal em que o toque era fundamental. Como uma orquestra silenciosa de dois integrantes, o gato e o homem respeitavam os seus próprios ritmos, encontravam a harmonia entre eles e seguiam no mesmo tom, simples, mas perfeito.

      Algum desatento poderia pensar que toda a vida do gato poderia ser compreendida apenas por um recorte do tempo presente, contudo, um resumo nunca conta uma obra por inteiro. Depois de muito perambular pelas ruas, a casa azulada do filósofo foi o primeiro ponto seguro encontrado pelo felino após uma brusca mudança em sua vida. De um dia para o outro, o humano, um jovem universitário, que vivia com ele em um apartamento de um dormitório desapareceu de sua vida. Depois de anos de convivência, em certa ocasião, os dois seguiram juntos até um parque, que o gato não conhecia. Excitado com tanta liberdade, ele subiu nas árvores, correu entre os arbustos, caçou borboletas e outros insetos, mas quando procurou com o olhar escrutinador pelo estudante, não o encontrou. Preocupado com o paradeiro do outro, o gato buscou pistas do humano que poderia estar perdido, que poderia nunca mais ser encontrado. Quando a noite chegou, não havia nenhum sinal que apontasse para o paradeiro do universitário, por isso o felino deu por encerradas as buscas do período; porém, as retomou a cada raiar do sol, embora não soubesse precisar quanto tempo havia decorrido. Embora a contagem e a matemática fossem invenções exclusivamente humanas, o gato compartilhava alguns sentimentos comuns às diferentes espécies. Em suas investigações, ele sentia muita falta do rapaz que havia se perdido, daquele que estivera com ele desde que era um gatinho, quando cabia na palma da mão do estudante. Mantinha viva a esperança de um dia reencontrar o sumido, mas por necessidade teve de abandonar o parque e passou a perambular pelas ruas da cidade. Foi mal recebido em várias casas até encontrar a residência azulada do homem de fala diferenciada. Rapidamente fizeram uma amizade que, de certo modo, substituía aquela que havia se rompido bruscamente. Foi nesse momento de solidão e desesperança que a relação entre o gato e o filósofo teve início, quando, mesmo sem nada saber, passou a ser chamado de Sócrates.

      Com o cair da noite, o gato tinha um apreço maior por passear pelos muros da vizinhança, aproveitando-se de sua condição de predador mortal para caçar gafanhotos e camundongos. Distraído em suas brincadeiras e jogos, evitaria visitar as gatas siamesas da rua de baixo. Haviam chegado os dias de mau humor, o período em que todo macho deve saber que para lidar com as fêmeas é necessário conhecer o melhor momento para uma aproximação, afinal seus ânimos são muito instáveis. Durante a madrugada, uma a uma, as luzes das casas iam se apagando, inclusive as do filósofo. Satisfeito com as suas aventuras, o felino encontrava uma fresta na janela da cozinha, que lhe servia para retornar ao interior da casa. Em uma confortável caminha redonda de cor verde, posta ao lado do leito do homem, ele dormia até o dia iniciar.

      Na manhã seguinte, ao contrário do despertar silencioso costumeiro, o gato pôs-se a miar alto, acordando o filósofo. Colocando o seu par de óculos, o homem imaginou que o felino estivesse faminto para se comportar desse modo inusitado. Normalmente, quando saía da cama, ele notava que o gato já não estava mais lá. Contudo, nas noites insones, em que passava as madrugadas entregue ao seu ofício imaginativo de criação literária, já acompanhara com um olhar curioso o início do passeio do felino pela casa vizinha após pular o muro. No entanto, naquela manhã, o gato miava e se esfregava na porta do quarto. Embora usassem formas distintas de expressão, começava a haver um entendimento. Levantando-se, vestido com o pijama, o homem foi em direção ao gato, que demonstrava a vontade de ser seguido. Quando o felino parou em frente à porta de entrada da casa, em vez de tomar o rumo da cozinha, onde poderia ser alimentado, ou, ainda, poderia sair pela fresta na janela, o filósofo compreendeu que a intenção era levá-lo para fora. Na visão do gato se formou a imagem do homem agitando a mão espalmada para frente e para trás, enquanto emitia sons ininteligíveis acompanhados de passos de retorno ao quarto. Após miar pedidos que o outro também era incapaz de decifrar com precisão, o homem retornou com uma vestimenta diferente. Ambos saíram pela calçada, o homem no encalço do gato que seguia decididamente à frente. Como ficcionista, tentava se aperceber de suas próprias sensações e emoções naquela inusitada caminhada, captando seus pensamentos e imaginando que história poderia ser contada a partir dessa experiência. Como filósofo, pensava sobre o acaso e o incompreensível, divagando sobre o valor de transformar a sua rotina em razão da vontade de um animal distante do saber racional, mas que o conduzia e o fazia experimentar uma sensação de ser criança novamente, de crer em uma vida construída por fatores aleatórios sem interferências de um poder superior, sem escolhidos nem rejeitados. Naquele momento, percebeu que o gato era um símbolo da liberdade, um ser sem a culpa de um passado que não viveu nem a expectativa de um futuro que jamais alcançaria.

      Ao chegarem em frente à casa amarela de esquina, o gato se sentou diante do portão aberto. O filósofo notou um carro funerário estacionado perante a residência. Ainda sem entender por que estava ali, sem nem mesmo ter se alimentado ainda, o homem tomou o felino nos braços, receoso de que pudessem estar atrapalhando alguma coisa. O menino, que permanecia sentado de olhos cravados no chão, na porta de entrada da casa, percebeu a presença do gato quando ouviu o miado. Correndo em direção ao homem que tinha o felino nos braços, o garoto acariciou a cabeça branca entre as pontiagudas orelhas. Alvinho, disse o menino. Sócrates, respondeu o homem.

      O que aconteceu aqui, perguntou o filósofo com um sotaque estrangeiro.

      Minha avó está dormindo e ainda não acordou, respondeu o garoto. A minha mãe pediu para eu ficar aqui fora enquanto o médico a examina.

      Oui, c'est d'accord, disse o homem. Meu prénom é Aloís, e o seu?

      Zumbi.

      Que prénom diferente.

      Foi a minha mãe quem escolheu, disse o garoto. É uma homenagem ao líder do Quilombo dos Palmares. Eu gosto do meu nome. Um zumbi não precisa ter medo da morte. O meu orixá disse que depois dessa vida passamos por uma transformação e começamos outra vez, mas como outra pessoa.

      Cético, ateu, comunista, filósofo e materialista, Aloís não sabia o que responder. Sorriu para o menino, que retribuiu com uma expressão tão serena e tranquila que causou um arrepio no homem. Será que Zumbi não sabia o que tinha acontecido ou sabia tanto que aceitava a vida como ela acontece, pois há ocorrências que não podem ser mudadas?

      Sentados sobre o gramado, o homem, o menino e o gato, se entendiam sem palavras, prescindindo de significados para classificar o momento que viviam. Juntos não havia solidão, nem mesmo um depois, tinham o momento que os bastava. Sentir-se livre do passado e do futuro era libertador, e naquela brincadeira de viver o presente, esqueceram de quem eram. Não havia mais Sócrates, nem Alvinho, nem Zumbi, nem Aloís. Diziam miau e isso bastava.

      Miau.


sexta-feira, 27 de março de 2015

Daqui a pouco: ¡Viva Jazz!

Nesta noite apresentarei o projeto ¡Viva Jazz! na sala de cinema do restaurante Magnólia, em Canela/RS. Todos os lugares já estão reservados. Quem não conseguir comparecer a esta edição, acompanhe o blog para se programar para a próxima.

Hoje serão exibidos dois concertos históricos de Louis Armstrong, seguidos por uma palestra e um debate mediado por mim.

Acompanhe o ¡Viva Jazz! na web:
http://vivajazzoficial.blogspot.com

sábado, 21 de março de 2015

O ¡Viva Jazz! é destaque no site da Prefeitura de Canela

O ¡Viva Jazz! está sendo divulgado pelos canais oficiais da Prefeitura Municipal de Canela.
Agradeço ao poder executivo do município pelo apoio às iniciativas em prol da cultura.































Confira a matéria completa no site da Prefeitura de Canela.


Acompanhe o ¡Viva Jazz! na web:
http://vivajazzoficial.blogspot.com
https://facebook.com/vivajazzoficial

quarta-feira, 11 de março de 2015

Abraça-me




quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Projeto ¡Viva Jazz! em Canela

Prezados amigos e leitores,
tenho o prazer de informar que, além do TerŞarau, agora também apresentarei outro programa cultural que chega a Canela e à Região das Hortênsias:




O projeto ¡Viva Jazz! apresentará sessões comentadas de concertos históricos e filmes de jazz, além de dar dicas de importantes jazzistas da atualidade.

Sobre o apresentador e idealizador do ¡Viva Jazz!:
Pablo Antunes, escritor e psicólogo, é um aficionado por jazz, estudioso das diferentes vertentes, do contexto histórico e das biografias de artistas desse gênero musical.

Anote em sua agenda:
O projeto ¡Viva Jazz! estreia em 27 de março às 20h no cinema do restaurante Magnólia (Rua Dona Carlinda, 255, Canela/RS).
Faça a sua reserva no telefone (54) 3278-0102 e garanta o seu lugar.
Ingresso: R$ 10,00.

Acompanhe também o blog e a fanpage em:

http://vivajazzoficial.blogspot.com/
https://facebook.com/vivajazzoficial






segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Para quem quer viver um pouquinho mais a ótima tarde que tivemos no lançamento de Contos Perigosos, aí está um breve vídeo que dá um aperitivo desse nosso encontro.

Perdeu o evento? Então assista e curta alguns segundos da ocasião.

Obrigado, Alexsander Webber, pelo registro.



domingo, 22 de fevereiro de 2015

Contos Perigosos: lançamento

Ontem foi um daqueles dias que guardarei para sempre na memória. No evento realizado na tarde de 21/02/2015, fiquei imensamente feliz em receber amigos e leitores para o lançamento dos Contos Perigosos.

Agradeço cada mensagem de carinho que ouvi e os belos recados deixados no livro de presença. Aos amigos do Empório Canela, deixo um muito obrigado pela parceria. Todo o carinho, apoio e incentivo são grandes impulsionadores para seguir criando e fazendo arte.

Vocês tornaram tudo tão especial.