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Coelho e Guerra








         Depois de dois dias chuvosos, as nuvens cinzentas ainda pairavam sobre a cidade. Uma trégua do gotejar, no entanto, dava uma pausa ao desfile de sombrinhas e guarda-chuvas que estava se tornando costumeiro. Em um pequeno apartamento, bem localizado em uma rua transversal que corta a principal, o sistema de calefação parara de funcionar novamente. O silêncio mortal que tomou conta do equipamento fez com que ele se levantasse da cadeira posta em frente ao computador. Com o punho fechado, uma pancada, duas, três, mas a solução primária não resolveu o problema. Nem mesmo os xingamentos que arrepiariam os pelos de um bravo foram suficientes para fazer o aquecimento tornar a funcionar. Talvez o aparelho não tenha entendido coisa alguma dos termos de baixo calão que a ele foram dirigidos, pois a inscrição made in China já faria supor que o português não era bem compreendido. Na parede da sala, oposta a onde estava o monitor do computador, um relógio analógico com um termômetro acoplado marcava 1º C dentro da residência. Com as mãos e os pés gelados, ele foi até o quarto e buscou o cobertor de lã pousado sobre a cama. De volta à sala, sentou-se novamente em frente à tela, cobrindo-se para prosseguir com o cadastro no site de relacionamentos, no qual, depois de algumas visitas, finalmente tomara a coragem de se inscrever. Embora as circunstâncias de sua vida tenham tornado-o um homem solitário, ou alguém que aprendeu a existir apenas na companhia de si próprio, este inverno o deixara um tanto melancólico, bastante saudosista; contudo, estava decidido a dar prosseguimento à sua nova vida, deixando as pessoas de seu passado fora de tudo o que desejava se tornar. Seu orgulho era maior do que a solidão que o dilacerava, pois enquanto um sentimento o fazia em cacos, o outro era uma cola que o tornava estático. Agora que estava de volta ao mundo, não procuraria quem o tinha deixado para trás, em uma espera por uma visita que foi se escasseando até nunca mais acontecer. Filhos e irmãos eram coisas, assim ele pensava, não pessoas, mas coisas que ficaram pelo caminho, tentando fazer mais fácil a tarefa de abandonar uma importante parcela do próprio passado. De realidade, no entanto, ele já estava cheio. Em frente ao computador, queria renascer como a pessoa que gostaria de ter sido, mas que se perdera em algumas das curvas da sua trajetória. No cadastro do site, precisava de uma identificação, de um login, de algo que dissesse bastante sobre si mesmo em um simples nome. Para ele, ser chamado por um nome ainda era algo tocante, com o qual tentava se acostumar, mas sem perder a enorme alegria que era ter uma identidade, de se sentir uma pessoa. Deixara para trás o número 7678, mas o sete-meia-sete-oito ainda não o abandonara. Sem jamais ter conseguido uma resposta para a questão “quem sou eu?”, não encontraria a si mesmo preenchendo um cadastro, e talvez temesse se aproximar da elucidação desse problema, então usou o próprio sobrenome para marcar quem era. Coelho, estava identificado. Era Coelho, e de algum modo sentiu que uma nova perspectiva de vida tinha início. O mundo agora era uma enorme cenoura e ele queria começar a ser feliz. Ao preencher o campo que lhe perguntava a idade, fez uso de uma lógica que o tornava sincero ao seu modo: descontou o tempo que lhe havia sido subtraído, então escreveu 30 no espaço vazio. Seguisse a mesma contagem válida para as outras pessoas, deveria ter colocado o dobro de anos, mas entendia que estava sendo sincero, ao menos com o que realmente tinha vivido.


ESTE CONTO ESTEVE DISPONÍVEL PARA LEITURA INTEGRAL até dezembro de 2014. Após essa data, poderá ser lido no livro Contos Perigosos que será lançado em fevereiro de 2015.












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