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Por que não celebrei o Natal

"Por que não celebrei o Natal" por Pablo Antunes

Assim como 5 bilhões de habitantes deste planeta, não sou cristão. Nas mais de três décadas vividas, cresci com uma avó católica, estudei em uma escola luterana, frequentei um centro espírita, de longe admirei o budismo; contudo, afastei-me do sentido sacro das religiões para observá-las e admirá-las por seu lado antropológico e mitológico. Atualmente, para mim, o cristianismo adquiriu um caráter de mitologia, assim como as antigas crenças gregas e egípcias. Portanto, celebrar o nascimento de Jesus de Nazaré seria o mesmo que comemorar as façanhas de Zeus ou de Osíris. Reunir-me com a família e amigos para festejar um acontecimento que não me toca mais seria o mesmo que preparar a ceia para o Ramadã ou o Hanuká. Nada disso me envolve mais. O dia 24 de dezembro se tornou como os dias 8, 12 ou 20, 28. Portanto, resolvi não fingir a mim mesmo ao desejar um feliz alguma coisa sem significado nenhum para mim.

Livre dos dogmas ou das certezas absolutas das religiões, sou um livre pensador sem receio de questionar o que for. Prefiro aprender com minhas dúvidas, com minhas indagações e com cada descoberta a prender-me a certezas que jamais conseguiram me convencer. Tenho um conhecimento relativamente bom das histórias bíblicas do Velho e do Novo Testamento, pois, como escritor, reconheço a força das suas narrativas na construção de mitos. Como psicólogo, interessam-me as variedades dos tipos psicológicos e como as personalidades influem na construção do imaginário do homem moderno. Não sendo cristão, admiro a mensagem de tolerância, de respeito e de amor propagada por Jesus Cristo. Aliás, sigo, desde quando estava sendo alfabetizado, um ensinamento que muitos atribuem a Jesus, mas que foi pronunciado pelo filósofo chinês Confúcio cerca de cinco séculos antes do nascimento do outro. Dizia ele: "Não faças aos outros o que não queres que façam a ti". Desde criança, esse é o mote da minha vida. Não preciso de nenhum regulador a me controlar para impedir que o mal seja feito. Basta-me saber que não sou melhor do que ninguém, nem tenho o direito de causar dano a outros seres, portanto não me refiro apenas a humanos, mas também a outras formas de vida.

Na noite de 24 de dezembro, senti uma paz interior possível apenas aos que são autênticos e verdadeiros consigo mesmos. Em minha busca pelo autoconhecimento e por erradicar a hipocrisia, preparei o jantar, ouvi jazz e li Dostoiévski. Como em uma noite qualquer, mas com o orgulho de não precisar fazer algo apenas para agradar a outras pessoas (mesmo aquelas que me são muito caras) ou para seguir no fluxo, apenas por ser o que todos fazem.

Aos que veem sentido no Natal, aos que são tocados por seu sentido religioso – e não apenas comercial –, desejo ótimas celebrações a cada solstício. Respeito todas as crenças, da mesma forma que espero respeito por minha incredulidade.


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