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"Sinisdestra": 10

"Sinisdestra" é um livro de contos interligados por um tema comum a todos.
Você encontra as partes anteriores nas postagens antecedentes.



10.

O velho automóvel que servia à família há mais de vinte anos era carregado com os pertences de maior valor sentimental. O caminhão de mudanças era ocupado apenas pelos móveis que caberiam na nova morada. Haviam se desfeito do sofá com quatro lugares, da grande mesa de jantar e suas dez cadeiras, da estante de madeira envelhecida que recebia todos os objetos feitos pelo artesanato local, além do velho fogão à lenha que ocupava o canto mais aconchegante da cozinha. Nada disso teria lugar no apartamento que passariam a ocupar, quando as lembranças do velho casarão seriam apenas imagens, sensações, cheiros de um passado que não resiste à flecha do tempo.

Isso é tudo papai, perguntava Analice.

Isso não é nada, respondeu entristecidamente Seu Casemiro. Saio daqui e deixo a minha alma na velha casa, a morada da nossa família, construída por meu avô, o seu bisavô, um pioneiro, um homem forte vindo de terras estrangeiras e que aqui ajudou a construir esta região que por tanto tempo foi abrigo para todos nós. Esse é o dia mais triste da minha vida, porque sei que toda essa história irá por água abaixo.

Também é triste para mim, sogro, disse Alencar. Mas, nossas fazendas não podem conter o progresso dos homens.

Sou agricultor há mais de sessenta anos, retrucou Seu Casemiro. Desde menino já acompanhava meus pais no plantio. Trabalhei essa terra por décadas, toda essa extensão que vai daquela macieira até aquele morro em forma de tartaruga. O meu trabalho alimentou a minha família e encheu a barriga de muitos moradores da cidade. Agora, o governo desapropria as minhas terras e me manda morar em um apartamento, ou melhor, em uma gaiola, porque um homem do campo, acostumado com a natureza, é um pássaro enjaulado dentro de um edifício.

Papai, por favor, não torne tudo mais difícil, pedia Analice. Somos a última família a deixar estas terras, todas as outras tiveram que se conformar com o seu destino. Eu sei que para o senhor é difícil aceitar que os túmulos da mamãe, dos meus avós e bisavós vão ser encobertos pela água, que o senhor nunca mais poderá depositar flores sobre as suas sepulturas no dia de finados, e isso também me entristece muito, mas já não temos mais forças para mudar o que nos impõe os empresários e o governo.

A construção dessa hidrelétrica é uma imposição do novo governo, completou Alencar. Na atual situação política, não há nada que possamos fazer para impedir. Tudo foi acertado entre o ministro da Integração João Remocaim e a cúpula dos invasores – os novos ministros da Energia, da Economia e do Ambiente.

Mais uma vez são os agricultores pobres que serão prejudicados, disse Seu Casemiro. As terras do João Remocaim não serão inundadas porque a construção do novo dique impedirá que as águas acabem com o patrimônio dele, mas o meu e o das outras famílias humildes vão se transformar em um imenso lago.

Vamos embora, papai, disse, em tom interrogativo, Analice.

Espere, respondeu o pai. Ainda preciso pegar os animais. Depois, deixe-me dar uma última olhada em tudo isso.

Papai, como vamos colocar três pessoas, três cães e dois gatos no apartamento, perguntou a filha.

O governo é quem tinha que responder a essa pergunta, emendou Seu Casemiro. Eu tive que aceitar um pagamento ridículo por minhas terras, me impuseram a saída da minha própria casa, mas não aceitarei essa regra que proíbe animais no apartamento. Não sei como vamos colocar todos lá dentro, mas se eles não forem, basta acomodar duas pessoas naquela gaiola, porque eu vou para a rua com os meus bichos.

Sogro, pode haver represálias, intercedeu Alencar. Se nos expulsarem do edifício, ficaremos todos sem moradia.

Então iremos para a fazenda do pilantra do João Remocaim, retorquiu Seu Casemiro. No campo, todos têm animais de estimação, esses peludos são nossos companheiros enquanto formos agraciados com a presença deles nesta vida, por isso o governo deveria ter planejado uma ação que incluísse uma família por inteiro e não somente os humanos dela. Não abandonarei meus cachorros e gatos para que morram afogados pelo interesse dos empresários.

Para que a viagem pudesse iniciar, foi preciso acomodar uma caixa de transporte contendo os dois felinos sobre o banco traseiro; a cadela alvicastanha de pequeno porte deitada no chão ao lado da porta esquerda, atrás do motorista; o velho cão manco deitado sobre o banco; e o líder da matilha, o grande cachorro de guarda, sentado no ponto médio do veículo, a cabeça posta entre os bancos dianteiros, exalando um bafo quente no condutor e na passageira da frente. Sentado no apertado banco traseiro do automóvel, Seu Casemiro sentia os olhos inundados ao imaginar o cenário da sua vida inteira ser ocupado pelas águas desviadas do rio.

Sem palavras pronunciadas, durante o trajeto apenas o barulho do motor do carro, o miado dos gatos e o arfar do cão maior podiam ser ouvidos. Embora emudecido, Seu Casemiro, com seu olhar perdido na paisagem desapercebida, recordava a primeira vez que andou de bicicleta entre o milharal. Voltou com as mãos raladas, sujas de terras, e com as canelas arroxadas. O primo Genival, o companheiro de brincadeiras e molecagens, havia se mudado para um desses apartamentos da cidade na semana passada. Jamais recordariam as travessuras, os bailes da juventude, as brigas com os rivais, nem qualquer outra memória sob a macieira que os recebia com sua ensombreada magnitude. A falecida esposa, outra lembrança constante, lhe tornava a ocupar os pensamentos. Seu Casemiro devia a sua vida a ela, quando ele teve uma febre altíssima, uma enfermidade que os médicos não conseguiam tratar, então ela colheu as ervas plantadas na fazenda e fez chás que foram amainando a temperatura corporal do marido até que o quadro clínico estabilizasse. Fora salvo pela mulher que amava e pelas plantas que submergiriam antes que qualquer cientista se interessasse por suas propriedades medicinais. Também deixava para trás a memória das animadas comemorações da festa do santo padroeiro, quando reunia na fazenda um grande número de convidados em encontros que começavam no início da manhã e terminavam após a meia-noite. Chegado à idade que tinha, Seu Casemiro entendia o quanto havia sido feliz naquelas terras que deixava para trás.

Sem perceber que o tempo havia passado, o velho agricultor se viu diante de um conjunto de edifícios iguais, clones arquitetônicos, de um cinzento inexpressivo. Acordando do torpor de suas memórias, estranhou não ter reparado nas avenidas e ruas movimentadas que tiveram de passar para chegar à vizinhança nova, uma região designada para receber os afastados de suas terras de origem.

Depois de desembarcar os cães, trazendo a caixa com os gatos na mão, acompanhado pela filha e pelo genro, Seu Casemiro pisou no assoalho do novo apartamento com o pé direito. Foi quando chorou como uma criança que se perde da mãe.

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