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A maldita felicidade

Sentado no desconfortável banco de metal do ponto de ônibus, Felício levantou a cabeça e contemplou o grande plátano sesquicentenário erguido na calçada oposta daquela avenida de médio fluxo no principiar da manhã. O vento frio daquele primeiro dia de outono parecia prenunciar o rigor de um inverno que se esperava fosse o mais severo da década. Com as faces geladas, Felício retirou do bolso do casaco um lenço de papel e limpou o nariz que começava a escorrer. Vagaroso em seus pensamentos, percebeu que uma folha do alto do plátano se desprendeu após uma rajada de vento. Sua expressão triste e conformada foi acompanhando a bamboleante trajetória descendente da folha. A qualquer outro observador, tal acontecimento não teria ocupado mais do que poucos segundos, porém, Felício o registrava com morosa percepção, captando cada instante da queda num quadro de cores e formas. O contraste do céu cinzento, o tom avermelhado da copa da árvore, o edifício residencial um pouco rubro e um pouco marr...